Jesus ainda chora




Alan Brizotti



João 11. 35: "Jesus chorou". Esse texto sempre me toca. Vejo um Jesus extremamente humano, tão humano que chego a pensar que eu não o seja. Ele sabe que dali a poucos minutos vai orar e ressuscitar seu amigo, mesmo assim, chora. Está vivendo intensamente cada instante: se seu amigo - naquele instante - está morto, então ele chora sua perda. Ainda choramos nossos Lázaros? Cada instante é sagrado.


Jesus, num único capítulo (João 11) tem dois encontros com a morte: o Lázaro morto e a Marta sem vida! Uma morte física e outra da essência. Tenho de admitir: sou muito parecido com a Marta! Ainda sou funcional. Procuro afazeres, corro, tento driblar a realidade fria da morte ao meu redor. Senti-la assim tão próxima, dói. Enquanto Maria, em casa, chora, Marta sai, anda, joga a dor na rua.


O que me consola é o fato de que Jesus amava Marta (Jo. 11. 5). Ela é impetuosa, corre até Jesus cheia de dores, esbraveja, fala, provoca porque sabe que ele tem poder (Jo. 11. 20-23). Também sou assim. Grito por dentro, choro, esbravejo, sou uma dúvida que incomoda. Sei que a morte está por aí... Ando pelas mesmas ruas que Marta.


Em João 11. 44 o detalhe espantoso: "Desatai-o e deixai-o ir". Uma multidão que não sabe o que fazer no pós-milagre! Jesus traz Lázaro da morte para a vida, mas cabe à multidão o "desatar" e o "deixar ir". Imagine a cena: Lázaro recebe um poder que o traz da morte para a vida, mas se ninguém o desatar, poderá morrer de novo - e sufocado! Ainda hoje, alguns milagres matam. Multidões amam espetáculos religiosos, mas não querem o trabalho de desatar e deixar ir. Ninguém deve instrumentalizar a graça, nem industrializar o milagre: Desatar e deixar ir! Essa é a verdadeira teologia da libertação.


Jesus ainda chora. Quantos Lázaros amarrados, presos nas redondezas divinas, nas masmorras milagrosas. Quantas Martas atarefadas, funcionais, sinceras, porém gastando energia demais em coisas sem significado para o reino? Ainda temos o discernimento para detectar as faixas da morte que sufocam os Lázaros, e as teias do efêmero que enrolam as Martas? Ainda choramos na solidão dolorida das Marias? (Jo. 11. 31)


O que amo em Jesus é sua esplêndida imparcialidade: ele traz Lázaro do túmulo, encontra com Marta no caminho - em todas as suas fúrias - e com Maria em sua dor e solitude, a mesma de Marta (compare Jo. 11. 21 com 11. 32). Palavras idênticas em diferentes formas de expor. A mesma súplica. Talvez aqui esteja a grande sacada: Jesus não recebe ordens, aceita súplicas!


Seja você Lázaro, Marta ou Maria, uma coisa é certa: Jesus ainda chora!

Extraído do Genizah
   
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