Você ainda chora?





Alan Brizotti



O dia que amanheceu cinzento. Um tom melancólico que combina perfeitamente com essa dor que insiste em acompanhar minha reflexão sobre a igreja. Uma lágrima desce livremente pelo meu rosto e, suavemente, pinga sobre meu colo. Entendo que soa estranho alguém amanhecer num dia qualquer e chorar a igreja no exercício de pensá-la. Entretanto, prefiro oferecer, nem que seja uma lágrima, a sorrir desesperado numa realidade tatuada de ilusão.


A vida em tempos de pós-modernidade, anda efervescente, borbulhante. Confusão, violência do corpo e da alma, uma espécie de reprise atualizada de Habacuque capítulo I. No âmbito eclesiástico, as mesmas tendências cansam meu pensar. Modismos, chatices teológicas do tipo "isso é a verdade!" Parece que o século XXI nasceu marcado para a triste vergonha da hipocrisia. Crise de sentido. Desculpe-me se pareço amargo demais, é que, humildemente, pego emprestado o tom dolorido da literatura profética bíblica.


Não sou um Jeremias, muito menos um João Batista. Mas olho para essa igreja sonolenta da atualidade e procuro incansavelmente por um homem ou uma mulher com a veia da sensibilidade profética, com o nervo da alma exposto, com aquela espécie de "fúria divina" que fez com que Jesus expulsasse os vendedores do Templo sem assustar um grupo de crianças que ali estava (Mt. 21. 15). Essa fúria divina adocicada precisa nascer nessa geração do ego inflado. Oh, Deus! Levante uma geração que tenha coragem de derramar uma lágrima por si mesma (II Cr.7.14).


Tenho observado os cultos aos domingos. Uma multidão de gente vazia. Gente que sente ter cumprido um item na agenda do acaso. Gente que chegou ao templo sem ser Templo, abriu a Bíblia sem ler a Palavra, cantou sem a inspiração do louvor, orou sem alma, voltou para casa sem cultuar. E assim, mais uma semana atropelará o calendário morno de sua pobre existência. Na parede da minha sala de estudos, um retrato em preto e branco de um antigo revolucionário mostra que a ânsia parada naquele olhar ainda não se satisfez.


Enquanto me esforço para preparar um sermão para pregar num congresso, sinto uma intrigante pergunta me incomodando: "Vale a pena tamanho esforço para preparar alimento para uma geração que degusta fartamente o que é medíocre?" A lágrima insiste em rolar. Contudo, insisto em me preparar, afinal, preciso viver o que prego, andar na contramão dos pregadores de trivialidades, especialistas de uma mensagem só. Dói, mas o ministério da pregação, que já teve um Spurgeon, Wesley, Bunyan, hoje agoniza com pouquíssimas vozes que ainda ousam gritar a Graça na casa do caos.

Esse artigo, na verdade, é uma lamentação hodierna cheia de um profundo sentimento de amor. Lamento porque amo. Amo profundamente a igreja, sou igreja. Amo profundamente a igreja como Ideia de Deus, como produto do pensar sagrado. Por causa desse amor é que venho publicamente chorar os rumos que a igreja insiste em seguir.

Minha oração hoje é por uma igreja que não perca de vista a presença de Deus. Uma igreja que viva para a glória de Deus, no cárcere ou na festa, exista para evidenciar a Graça. Uma igreja que se proponha a retomar o lema clássico da Reforma: "Igreja reformada, sempre se reformando". Uma igreja que seja farol da esperança para os que navegam no tumultuado oceano da da incerteza. Uma igreja que ouse celebrar o Dom da Vida.



Faço minhas as palavras do apóstolo Paulo em I Coríntios 15.10: "Mas pela Graça de Deus sou o que sou". Por causa da Graça ainda luto. Por causa da Graça ainda penso. Por causa da Graça não me envergonho de oferecer meu rosto como palco para que a lágrima dê seu espetáculo. Escrevo não com o sentimento de quem escreve um texto qualquer, escrevo porém, com o coração na ponta do dedo, com o olhar embaçado, um nó poético na garganta e uma melodia na alma. Sou grato a Deus por poder chorar a igreja, é um bom sinal de que a música celeste que em mim ressoa ainda não se calou.


Pensei em pegar o lenço, mas, deixei essa ideia sucumbir. Já que a Presença de Deus é tão forte nesse instante, a lágrima fica livre para banquetear e dançar no rosto que amanheceu melancólico mas que já se ergue e olha para cima, de onde ainda vem o socorro.

Uma lágrima. Parece pouco. É pouco. Mas, como disse Confúcio, um sábio chinês: "É melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão". Você ainda chora?



Que minha lágrima encontre a sua.


Alan Brizotti colaborando cada vez mais no Genizah


Extraído do blog Genizah.

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O Alan Brizoti se superou neste post, um lindo texto, profundo e marcante. Como postei no comentário no Genizah, que as nossas lágrimas encontrem outras tantas, de muitos que anseiam que a igreja brasileira tome novos rumos em direção ao Único e Verdadeiro Deus.


Cíntia M.S.
   
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