E-mail ao Papai Noel!




Sr. Noel


Essa é a primeira vez que te escrevo, portanto peço que seja amigável e não demore a responder. O Natal está muito perto e não sei quanto tempo uma carta levaria para chegar ao Pólo Norte e ser entregue aí na sua casa, se ela chegasse depois não faria sentido. Então resolvi enviar este e-mail, é mais prático e o assunto é urgente!



A princípio, quero informá-lo, embora acredite que o senhor já deve saber, durante esse ano eu não me comportei bem, aliás, tem sido assim: quanto mais me acho bom, mais sinto que preciso melhorar. Sei que não é justo incomodá-lo para falar dos meus desejos, mas insisto, pois não vou tomar seu tempo pedindo nada pra mim.



Imagino que o senhor está meio ocupado com centenas de sacolas cheinhas de presentes para entregar. Mas, lembre das facilidades que tens: o senhor não enfrenta filas com pessoas mal educadas, nem os shoppings e comércios lotados como formigueiros, ou passa horas num engarrafamento. Então certamente vai ter tempo de me atender.



Humildemente, peço que faça uma visita aos hospitais e leve uns presentinhos para as crianças enfermas, cancerosas, com membros mutilados, vítimas da pedofilia. E para tantas outras que são encontradas nos corredores da indiferença, sendo mal atendidas por profissionais frustrados e incompetentes. Correrás o risco de ser percebido por uma delas que talvez não consiga dormir direito, sentindo dores. Seja discreto. Não entregue o segredo...



Por favor, percorra também os orfanatos para dar alegria aquelas que convivem com o trauma de serem abandonados pelos pais. Muitos deles já viram morrer o sonho de ter uma família. Peço que sobrevoes os morros e favelas para encontrar nos barracos o sorriso branco e agitado do inconformismo. Cuidado com os fios dos postes! A estas doe também livros que lhes ensinem a assimilar o futuro e a ter esperança.



Percorra as ruas e avenidas, explore guetos e debaixo dos viadutos. Não haverá meias penduradas porque eles não calçam sapatos, muito menos guirlandas ou árvores com enfeites, só o frio do não ter. Os papéis de presente podem servir de dormida, melhor que jornal! Essas crianças precisam de afeto e do respeito das autoridades, mas se der um brinquedo verás que elas ficam contentes, se der comida então, vai ser ótimo.



E não se esqueça das crianças no Nordeste que parece longe, mas não pra quem não gasta nada com combustível e nem paga IPVA (seria maldade); dá pra fazer um esforço. Eles se contentam facilmente, quase nunca ganham nada, basta uma boneca de pano ou um carrinho de rolimã, o importante é não descriminá-los. Não possuem chaminés, mas dá pra improvisar descendo pelos fornos dos engenhos e casas de farinha onde começam a trabalhar desde muito pequenos para ajudar no sustento da casa.



No mais, estou certo de vossa presteza em me atender com satisfação, afinal o senhor não esquece de ninguém... Não precisa mostrar isso nas suas propagandas da TV, só queria que sua atitude pudesse atribuir ao Natal um novo significado, diferente da baboseira consumista que vem sendo veiculada, ou talvez um único para quem nunca viveu essa “magia” e desconhece o sentido até do próprio existir.



Eder Barbosa de Melo
eder.barbosa@hotmail.com


-- Extraído do blog Recortes.
   
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