Debochando dos pentecostais??





Por Alan Brizotti


Da série Patópolis é aqui! (2)


Dias atrás, um post com uma piada sobre o Pato Donald falando “línguas esquisitas” gerou alguns comentários. Dentre eles, um merece destaque : “vcs estão gostando de esculachar os pentecostais, imitando as linguas estranhas, acho isto um pouco de falta de bom conteudo para publicar. acho que um pouco de auto critica deverá fazer bem. mas isto não da ibope, o que da ibope é esculachar os pentecostais. afinal de contas quem são os pentecostais né? são um ‘povinho’ bom pra ser achincalhado. continuem, não parem, afinal do que é que vamos ir, não é! (sic)”. Esse comentário foi assinado por Ariane & José Marcos.

L. Folgore disse que “o humorismo é a arte de virar no avesso, repentinamente, o manto da aparência para por à mostra o forro da verdade”. Ainda não aprendemos a lidar com o profetismo enquanto denúncia dos males e distorções. Ainda não aprendemos a ser confrontados em amor – preferimos ser detonados com fúria. O que o Pato Donald do post mostra dá pra ser chamado de “dom do Espírito?”, é óbvio que não! O problema é que, na igreja de hoje, já nem se sabe mais o que é um dom do Espírito!

Jonh Stott escreveu: “A prinicipal evidência de uma pessoa cheia do Espírito de Deus hoje é moral, não miraculosa, e reside no Fruto do Espírito, não nos dons do Espírito. (...) Estar cheio do Espírito é estar cheio do amor. Sem o amor, os dons do Espírito são sem valor (I CO. 13). O amor requer os dons como equipamento necessário para poder servir aos outros (Ef. 5. 18-21).

Qual é a finalidade dos dons? Crescimento sadio da igreja. Afirmação do equilíbrio perfeito entre unidade e diversidade. A igreja deve sua unidade à Charis (graça) e sua diversidade aos charismata (dons da graça). O grande problema reside no fato de que supervalorizamos os dons e esquecemos o Fruto do Espírito. Viciados em espiritualidades pirotécnicas, negligenciamos o lento e silencioso processo do crescimento de um Fruto. Aliàs, a distinção que Paulo faz em Gálatas 5 é perfeita: “obras da carne” (obra é aquilo que eu posso fazer) e Fruto do Espírito (Fruto é aquilo que nasce em mim, por um poder que não tenho).

Elienai Cabral Jr. escreveu algo muito importante: “o dom de línguas, ao contrário do que somos levados a crer na ambiência pentecostal, não é um sinal de poder, prestígio e orgulho. É um sinal de fraqueza, humildade e esvaziamento. Falamos línguas que sequer conseguimos entender”. O problema é que, em nossas igrejas (ah, eu sou pentecostal!), esse dom é atestado de santidade, carimbo de poder, etiqueta dos iluminados. Ele gera uma constrangedora divisão: de um lado os “batizados” (poderosos, mandam em tudo), do outro, os “coitados que ainda não foram batizados” (o máximo que podem fazer é resignar-se ante à displicência divina).[grifo meu]

Tenho uma pergunta: os pentecostais ainda sentem-se um “povinho”? Onde está aquela certeza toda que embala a “marcha para Jesus”. Onde está aquela autoridade toda que brinca de expulsar demônios e pessoas? Somente a mentalidade do “povinho” é capaz de levar Pato Donald a sério, agora entendi.

No fim do comentário está escrito: “afinal, do que vamos rir?” Respondo: não rimos apenas dos pentecostais, mas de tudo que o humano faz na tentativa ridícula de se divinizar.

*
Alan Brizotti é pentecostal e aguarda visto para Patópolis aqui no Genizah
A ilustração herética é do Danilo


Post extraído do blog Genizah.

***********

[Não concordo com a idéia do Pato falando nas referidas "línguas esquisitas", acho inapropriado e de mau gosto, pois a intenção é sim fazer comparações. Mas não reprisei este post para dar minhas opiniões sobre o caso. Reprisei aqui este post porque achei o comentário do Elienai Cabral Jr muito interessante, quem já passou por isso é que sabe. Foi muito feliz a reflexão do comentarista.]

Cíntia M.S.
   
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...